Fábio Pirajá Fábio Pirajá é capixaba, radialista, três filhos, nascido em Vitória do Espírito Santo em 29 de agosto de 1965, formado em Ciência da Computação pela FAESA. Teve seu primeiro contato com o mundo do rádio através do primo, o radialista e jornalista Venceslau Gomes, o Lalau, na Rádio Espírito Santo AM, por volta de 1977.
Começou sua carreira como "discotecário", antigo termo para DJ, com 14 anos. Montou sua equipe de som, Thunderclaps em 1978, seu primeiro home estúdio "Alfa Produções" e suas primeiras experiências com radiodifusão em sua rádio pirata Scorpion FM, em 1981.
No verão de 1982 foi contratado como DJ do rink de patinação Zeppelin e da Boate Luazul, ambos em Guarapari e Boate Black Horse em Vitória em 1983, que se incendiou no mesmo ano.
Em março de 1983, contratado como locutor pela recém inaugurada Rádio Tropical FM 103,9, estréia no programa Playlist Matinal, no horário de 11 às 15h.
Passou pelas rádios Cariacica FM, Galáxia FM (Coronel Fabriciano - MG), Cidade FM (Vila Velha - ES), Capital FM, CBN e finalmente Gazeta AM (todas em Vitória - ES) onde permaneceu por 10 anos, até fevereiro de 2000.
Com mais de 25 anos de experiência, hoje atua como apresentador e comunicador de rádio, DJ, locutor e ator publicitário e sonoplasta.
Com estúdios próprios, faz locuções de publicidade para Rádio, TV, narração de filmes documentários, edição de áudio e vídeo e atua como mestre-de-cerimônias em eventos diversos. Na área de sua formação trabalha como web designer no desenvolvimento de páginas para a internet.
Detalhes em:
www.fabiopiraja.com
www.locutor.info
A Extinção dos Dinossauros
Triste o período pelo que passa o rádio no Espírito Santo e no Brasil. Estamos assistindo, de braços cruzados, à extinção do que eu
denomino de "Era dos Dinossauros" do rádio.
Sabemos que os períodos geológicos radiofônicos, de tempos em tempos, provocam a inevitabilidade das extinções em massa, o mesmo que se deu com
os dinossauros há 65 milhões de anos, no fim do Cretáceo.
O que nos deixa apreensivos é a perspectiva de que esses eventos catastróficos não são culpa ou negligência dos sujeitos e agentes dessa história
- nós mesmos "os dinossauros do rádio".
Sem querer associar a palavra "dinossauro" ao que muitos poderiam ligar à coisa antiga, museu, jurássica ou perdida no tempo, tento passar a idéia
de que esses "monstros" do rádio não estariam sendo extintos senão pela força oculta da natureza das ações equivocadas dos empresários
de rádio no Espírito Santo, especialmente na Capital, Vitória, de onde sempre saíram os maiores nomes do veículo desde a criação da primeira
emissora nos anos 30.
O que vemos hoje é a ascensão de uma ordem de novos "seres do rádio", que eu poderia comparar facilmente aos mamíferos, que depois
da Era dos Dinossauros, tomaram facilmente conta do nosso planeta rádio, por absoluta falta de concorrência profissional.
O fato é que os mamíferos jamais teriam chance contra os dinossauros na luta pela supremacia, por vários motivos óbvios - tamanho, ferocidade,
adaptabilidade e profissionalismo, além da experiência acumulada ao longo desses milhões de anos em que estiveram dominando as ondas do rádio
em nosso estado.
O que está acontecendo mesmo é a extinção involuntária dos grandes profissionais do rádio no Espírito Santo e no Brasil, em função da falta
de capacidade e competência técnica de gerentes, diretores e proprietários de emissoras, que ao longo dos últimos 20 ou 30 anos,
justificaram essa anomalia como sendo reciclagem natural, apostando tudo na tecnologia, nas demissões, nessa reengenharia absurda,
trocando pessoas por computadores. Você acredita mesmo que isso pode dar certo?
As pessoas estão em busca de alguém que lhes diga algo e não de computadores, programas gravados e esquemas automatizados, absolutamente
frios e vazios de conteúdo como ouvimos hoje, todos os dias e em quase todas as emissoras de rádio.
Onde está o profissional de rádio de antes, inteligente, que nos fazia pensar e emocionar?
Na verdade o mercado de locutores não colocou nada novo no ar desde a última geração, no começo dos anos 80 e na qual me incluo,
junto com Kazinho, Emerson Miguel e Volney Rocha, apenas citando alguns nomes.
Nem mesmo as faculdades, com seus cursos de radialismo, serão páreo para o mercado predatório e seus baixos salários,
o que fará inevitavelmente que alunos interessados em rádio simplesmente mudem de opção depois que conhecerem como realmente funciona o veículo
no estado.
O que vemos, ou melhor, ouvimos hoje nas rádios de Vitória, é uma horda de profissionais de nível questionável, engessados dentro de esquemas
nada criativos, colocando novamente, toda uma raça em perigo de extinção.
Talvez seja a hora dos verdadeiros profissionais do rádio se levantarem e buscarem seus lugares dentro da história.
O que aconteceu com os nomes dos anos 40, 50...? Só temos alguns exemplos vivos como Jairo Maia e alguns poucos - e os outros?
E a nossa própria história? Nossa sobrevivência como espécie depende disso.
Não se faz um bom rádio sem os profissionais de antes - como aprender se não há ontem, se não há professores ou avós?
Quando comecei minha carreira em 1982, já não havia muitas fontes de aprendizado e pesquisa ou em quem nos espelhar, mesmo assim contra todas as probabilidades tive a oportunidade de conviver com alguns dos bons nomes do nosso amado veículo, como Luis Carlos Peixoto
por exemplo.
Acho que não basta uma expedição paleontológica aos confins do rádio capixaba pra desenterrar o que tivemos e ainda temos de bom em nosso meio.
É preciso que haja mais comprometimento e talvez até uma ressurreição, dada a falta de opções nesse mercado saturado de currículos inchados e
cabeças que não pensam, só sustentam chapéus.
Permeando a audiência das emissoras de rádio nesse século de aniversário do veículo, sempre encontramos a vontade de ouvir uma voz que nos prenda
a atenção, guie ou conforte ao longo do dia e mesmo à noite - o speaker (o locutor). Muito mais que um profissional, o amigo de todas as horas,
que nos acompanha todos os dias, alguém que sabe o que diz e que sabe por que está ali - essa história ninguém jamais mudará, a relação entre
ouvintes e locutores de rádio.
No final das contas perdem os profissionais da área, os donos de emissoras e na outra ponta nós mesmos como ouvintes de rádio que sempre fomos
e seremos pra toda a vida.
Como sempre me coloco à disposição para debater, discutir e até mesmo brigar se necessário, pra ver o rádio renascer das cinzas como uma
Fênix Pterossauro, assumindo de uma vez por todas o seu lugar por direito.
• Porque atualmente o radio não produz grandes nomes como no passado?
O rádio deixou de ser a novidade revolucionária do começo do século 20 e vem perdendo espaço, audiência e credibilidade desde a chegada da televisão e mais recentemente da internet. No começo de tudo o rádio projetava celebridades, criava mitos, desbravava fronteiras intelectuais e durante 50 anos dominou o panorama social e político do Brasil como veículo poderoso e imprescindível na manutenção de todas as nossas instituições.
Acredito que todas essas novas formas de comunicação integradas ao movimento mundial globalizado, a nova configuração geopolítica internacional e outros fatores que são, por incrível que possa parecer, inversamente proporcionais a tudo isso, como a regionalização e valorização das culturas locais, nos fez reféns de um rolo compressor de informações e um bombardeio diário de imagens, som, poluição, que nada de novo, criativo ou muito menos inédito surgisse nesses últimos tempos. Nada mais se cria, dá-se mais valor a padrões estéticos estabelecidos em cartilhas ultrapassadas do que às novas idéias e aos homens e mulheres que estão dispostos a mudar através da discussão de novos padrões.
O comunicador, o locutor, o comentarista, aquele que expõe suas idéias em frente ao microfone, enfim o radialista é a peça fundamental na engrenagem que fez e poderá fazer novamente do rádio no Brasil o grande veículo que foi no passado, ninguém mais.
O rádio no Brasil sofre do mal da falta de criatividade. Acho que ainda vai piorar.
• As programações refletem realmente o que o ouvinte sente e deseja?
De forma geral acho que o rádio deve ser segmentado, falar e tocar o que deve ser mais conveniente a sua manutenção, levando em conta sua região, características locais, seu povo e suas potencialidades, e é claro sua isenção, tendo sempre em vista sua responsabilidade inerente como veículo de comunicação de massa e formador de opinião. O resto não interessa.
• Existe conflito entre profissionais formados em faculdades e as novas tecnologias de hardware e software? (Há espaço para esses novos profissionais em plena era da programação computadorizada?)
O novo profissional está absoluta e irremediavelmente conectado a essas novas tecnologias, não vejo relação de conflito entre uma coisa e outra, pelo contrário, é mais fácil hoje do que 20 anos atrás.
Com relação à profissionalização não há outra saída senão pelo estudo, laboratório e pesquisa científica, e isso só é possível nas universidades e faculdades.
A falta de interesse dos jovens estudantes e profissionais pelo rádio será a morte do veículo. O rádio precisa de gente capacitada para enfrentar esses novos desafios. Já não era sem tempo.
• Qual o perfil no novo profissional de rádio?
Vejo hoje no rádio do Espírito Santo dois tipos de profissionais - os que estão no meio há muitos anos e que por isso não têm outras opções ou oportunidades no mercado de trabalho e se acomodaram e os que eventualmente caem de pára-quedas na profissão. Esse último acontece em todos os segmentos profissionais de destaque como o rádio.
A verdade é que não há formação de profissionais, pois não há vagas, não há emissoras suficientes e os salários são ridículos – como criar interesse nessas condições? Por outro lado não podemos desmerecer o trabalho dos verdadeiros profissionais que dedicam ou dedicaram suas vidas ao rádio, aí eu me incluo.
• Por que o desprezo das agências de propaganda? Qual o papel e o espaço do rádio no mercado publicitário? O emprego de estagiários é importante?
Não acho que exista desprezo, mas acredito no desinteresse. Uma coisa puxa a outra ou quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Antes de responder essas perguntas é preciso fazer algumas outras e pensar sobre o assunto.
Como aumentar a audiência do rádio sem o novo, o inédito, o criativo, o inteligente?
Como criar interesse nas agências de publicidade com esse nível de profissional que há hoje no rádio?
Como criar interesse no anunciante, no comerciante se não há nada de novo ou interessante nas programações?
Como criar interesse no estudante com a realidade que se apresenta e o alto custo das faculdades?
Como evitar a saída de um ex-estagiário bem treinado e mal remunerado?
Como regulamentar definitivamente, de fato, a profissão de radialista?
Qual o papel dos sindicatos nesse processo?
Como motivar pagando esses salários?
Como criar mais vagas, em mais emissoras de rádio sem a invasão do satélite?
Como distribuir honestamente os canais de rádio e sem a influência política?
Como fugir da mesmice das programações dos últimos 20 anos?
Como criar, cativar ou educar uma audiência inteligente e rentável?
Como competir com o videogame, a TV a cabo, a internet e o MP3?
Como ressuscitar o rádio AM?
O que fazer com as rádios piratas e as comunitárias?
Respondidas essas e algumas outras questões, todos os nossos problemas estarão resolvidos. Nós já conhecemos essa história decor e salteado.